Não era o que parecia ser o slogan do liberal

Jornal (O Liberal) tão bom e tão grande, o maior da cidade com uma Joia de slogan:

“Você lê. Você acredita”.

Não era o que parecia ser (o slogan foi apagado), não persistiu no erro.

O defeito da Mula estava na cara. O do jornal estava na primeira página. Conta-se que certo caboclo tinhoso, vendeu uma mula de grande porte — musculosa; pelo macio, brilhoso, escovado; ferradura nova; os dentes não lhe faltavam um; as clinas, rigorosamente aparadas e escovadas —, por preço astronômico. Ele garantiu ao comprador lisura no negócio e recomendou-lhe que examinasse a mula à vontade, pois o defeito estava na cara. O defeito não foi detectado, a mula era cega. O defeito do jornal também não, ele ostentava com muita arte e cor, um slogan “Você lê. Você acredita” é um senhor jornal, competente e de qualidade invejável, mas o slogan, era fraco, não transmitia o que o jornal queria dizer com o seu vozeirão. Apelava para a crença, se o leitor não estivesse ungido da fé do carvoeiro “(...) você acredita” era aconselhável que ele não lesse o jornal ou então o leitor deveria de ser obtuso, sem vontade, sem raciocínio, de fácil indução “Você lê. Você acredita”, sem chance de contestação ou uma análise mais profunda, para separar o que é aceitável e o que não é.

Também! Pudera! Não sobrou consenso, sequer um pequeno espaço para as considerações das circunstâncias, nem mesmo para ligeira conclusão do que estava certo e o que estava errado. Desde quando, jornal publica a verdade?

Thomas Jefferson, disse em 1807 “É uma triste verdade que a supressão da imprensa não poderia privar mais completamente a nação de seus benefícios do que se se prostituíssem os jornais, entregando-se à publicação de mentiras. Não se pode agora acreditar no que se vê num jornal. A própria verdade torna-se suspeita se é colocada nesse veículo poluído. A verdadeira extensão deste estado de falsas informações é somente conhecida daqueles que estão em posição de confrontar os fatos que conhecem com as mentiras do dia. Encaro realmente com comiseração o grande grupo de meus concidadãos que, lendo jornais, vive e morre na crença de que souberam algo do que se passou no mundo em seu tempo, ao passo que os relatos que leram nos jornais são uma história tão verdadeira quanto à de qualquer outro período do mundo, só que os nomes de figuras da atualidade a elas são apostos.” e ele disse mais “Acrescentarei que o homem que não lê jornais está mais bem informado que aquele que os lê, porquanto o que nada sabe está mais próximo da verdade que aquele cujo espírito está repleto de falsidades e erros. Quem nada lê, mesmo assim tomará conhecimento dos grandes fatos, e os detalhes são todos falsos”.

Vale a pena lembrar que os portugueses daqui — leitores assíduos do jornal e desprovidos de fé —, não são como os portugueses de lá, se fossem, não precisaria consertar o defeito da primeira página. O escritor José Saramago, disse “A maioria dos meus patrícios portugueses são analfabetos, não sabem escrever um bilhete, pois não!” os portugueses odiaram o escritor, e o governo odiou o escritor mais que o povo. O governo teve razão para tanto ódio, pesou nas costas dele a culpa do analfabetismo. Bom! Já que estamos no terreno das lembranças, não custa nada lembrar que por estas bandas daqui, o paraense sabe ler e escrever — também são leitores assíduos do jornal e cheios de fé —, sabem como ninguém colocar para fora a fé que eles têm dentro do peito. Escancaram-na para o mundo. Exercem o direito de ter fé de forma explícita para não gerar dúvida. Dois milhões de paraenses acompanham uma procissão como quem vai à bica encher o pote d’água. É compreensível! A causadora de tamanha fé foi encontrada em um igarapé! Se os leitores do jornal (O Liberal) com defeito na primeira página eram estes portadores de tanta fé, não precisava apagar o slogan, eles acreditam em tudo, no que leem e no que ouvem. Por mais absurdo que sejam os escritos e as histórias.


02/2009

Edvan Brandão: Especialista em: Língua Portuguesa e Literatura; Escritor Ficcionista e Jornalista; E-mail: edvan.brandao@gmail.com Cel: 91 98802-1718