Ilusão do nada a nota da fome é dez ela jamais alcançou o zero

ILUSÃO DO NADA: A NOTA DA FOME É DEZ, ELA JAMAIS ALCANÇOU O ZERO

Cinco corações batem dentro de um barraco tétrico, fedorento, medindo três metros por três metros, os tapumes feitos de tábuas velhas, plásticos fedidos, tudo recolhido no lixão. Para os pais e os três filhos os moradores do barraco, a residência deles não tem cheiro e nem catinga, é totalmente inodora, o que o barraco tem muito, é gente passando fome e a mesma quantidade de estômagos vazios. Só o casal levantou-se do chão de terra batida; onde dormiam cobertos por um lençol velho de retalho sem cores definidas, estava preto de sujo; a agonia dos dois era rotina e sem que soubessem pensavam a mesma coisa, já é meia-noite, precisamos nos apressar, hoje, como ontem, não temos nada para comer; não tivemos sorte e nem força para lutarmos no meio da multidão nos momentos das disputas quando os caminhões dos supermercados chegaram ao lixão e jogaram fora os restos de comida vencida, não sobraram nada para nós, só para os de muita sorte. Sorte! Como pode alguém de sorte catando comida no lixão? Claro que pode! A miséria em que vivemos consegue ver o fator sorte para aqueles que levam comida para casa. Eu e minha mulher, mais do que ninguém! Sabemos que é preciso sorte e muita força para lutar por um pedaço de qualquer coisa estragada. Mas hoje nós vamos conseguir o que comer, no meio daquelas sobras vencidas jogadas no lixão. Estamos indo com mais força e mais esperança, só não podemos levar conosco... Este choro... Dos nossos olhos... E dos nossos corações. 

O barraco miserável e a família mais ainda, se multiplicam aos milhares nas proximidades do lixão. Estas famílias não conseguem trabalho de espécie alguma. Não conseguem produzir sequer um real por dia, elas foram banidas da sociedade, condenadas a viverem em companhia dos urubus e desprovidas dos cuidados higiênicos; do receio de contrair uma doença ao comer comida estragada. Estas coisas para eles são bobagens, costumam dizer “Higiene e doença, isto é luxo de gente rica que tem trabalho, e comida para comer! Nós do lixão lutamos para ficar vivo, a morte é descanso, quem tem medo de descansar?” e quando dizem, reveste-se de uma convicção tamanha, que parece falta de amor pela vida, mas não é isto, muito pelo contrário, eles estão afirmando: que para ficar vivo, estão dispostos a morrer.

A fome dos que estão no lixão é dez, e ela só é dez, porque eles estão aguentando-a, no limite deles mesmos, não dá para aguentar a fome um pouquinho mais, quando ela chega à nota máxima, eles então, comem qualquer coisa: estragada ou por estragar. Fome zero é mercadoria de exportação, coisa feita para inglês ver. Fome zero é fonte de elogios internacionais para os que lidam com o dinheiro dos famintos — se alguém em sã consciência preferir chamá-lo dinheiro público, então o chame —, eu estou me referindo ao dinheiro desviado das ações sociais, das corrupções que assolam o país, das falcatruas financeiras que recheiam cuecas de deputados. O resultado disto tudo, é que o dinheiro não chega às classes pobres miseráveis. Os valores irrisórios distribuídos para as famílias do programa Fome Zero é piada de humor negro, a plateia tem que se segurar,não dá para sorrir, com muito esforço dá para chorar. Cada família recebe por dia a insignificância de Dois Reais e Trinta Centavos, aproximadamente. E para receber, precisa ser além de miserável, dona de muita sorte, é o equivalente a ganhar na loteria. Como pode um montão de família de miseráveis que se encontram agrupados morando no mesmo buraco de infortúnio, uma família recebe e os quatro, cinco vizinhos não recebem! Por quê? Não deu sorte? Não mereceu? O instrumento que mede a fome apontou acima de Zero! Não é para menos! O dinheiro distribuído não alimenta uma família, só se fizer milagre. Não, não, não, não o lixão nem sempre é a solução, um dos grandes supermercados da cidade, quando manda toneladas de alimentos vencidos para o lixão, o proprietário manda batizar com creolina. O avarento não aceita a ideia, a possibilidade de que alguém possa comer ou usufruir lucros sobre uma mercadoria que ele não teve tempo de vender e colocar os lucros no bolso. Ele não quer saber se os miseráveis do lixão fazem banquete com alimento vencido, ele só come do bom e do melhor, não conhece fome, precisa fazer regime porque come demais, vende caro demais, é ruim demais, é burro demais, não descobriu o prazer e a satisfação em promover a felicidade do próximo. Um homem que derrama creolina em toneladas e mais toneladas de pescada, filhote, frango, peru, pernil, charque, linguiça, mortadela, queijo, iogurte, biscoitos etc. Para impedir que sejam consumidos pelos famintos! Este homem é mais miserável do que os miseráveis do lixão, que esperam dia e noite a comida vencida, para disputá-la no supetão. Com este refinamento de maldade,este homem deve ser daqueles que até os comerciais da empresa dele, ele faz sem gritos, não faz uso do alarde para nada nem mesmo para a caridade, o miserável é ruim na surdina do dia e da noite.


06/2007

Edvan Brandão: Especialista em: Língua Portuguesa e Literatura; Escritor Ficcionista e Jornalista; E-mail: edvan.brandao@gmail.com Cel: 91 98802-1718